Tremendo de raiva, o senhor Oliveira apertou-lhe o pulso.
— Esta foi a última vez, seu preto. É hoje que vais deixar de roubar. Levem-no lá para trás!
Chico não percebeu o que se passava, ou por qual razão o patrão o arrastava para o pomar.
Junto a eles seguem dois capatazes. Silenciosos, confundem-se com as sombras reveladas pela lamparina a óleo. À cintura de um deles, espreita ainda uma corda e um chicote de couro.
Após esta curta caminhada, Chico é arremessado, batendo com o rosto no chão. O desespero que o invade não o deixa saborear o sangue, a terra e a poeira na sua boca.
– O que fiz, patrão? – disse Chico.
– Tu sabes bem o que fizeste.
– Não sei, não!
– Dou-te uma oportunidade. Uma! Onde está o anel? – disse o senhor branco, entre dentes cerrados, encarando a sua presa num misto de fúria e desprezo.
– Que anel?
– Ai a merda! Não te faças de novas, Chico. O anel da tua patroa. Onde é que ele está?
– Deve estar no quarto da senhora, patrão! Lá na mesinha junto à cama.
– Não está lá, e tu sabes bem. Roubaste-o!
– Eu não roubei nada! Já lhe disse que não sei onde está – disse Chico, primeiro sentindo-se injuriado e depois receoso sobre o que estaria prestes a acontecer.
– Por favor, acredite em mim! – suplicou.
Os cães, presos no canil, assistiam à cena excitados. O seu instinto permitia-lhes sentir o cheiro a violência que pairava no ar. Também eles sabiam que a sentença estava há muito traçada, e que o desfecho seria impetuoso e breve.
– Estes pretos são todos iguais. Mentem e mentem como uns desalmados – disse o senhor Oliveira.
Os dois capatazes entreolharam-se perante esta troca de palavras.
– Chico, Chico, Chico… Eu não queria que isto chegasse a este ponto, mas, se é assim que tu queres, então vais ter o que mereces – disse o patrão.
Encarou então os capatazes.
– Do que é que estão à espera? Amarrem-no ali à árvore!
Chico ainda pediu clemência, mas de nada lhe serviu. A sentença estava proferida, já se fazia tarde e o senhor Oliveira não se iria deitar sem exercer a sua justiça, neste mundo do “quero, posso e mando”.
Aterrorizado, Chico olhou para o chicote, que agora passava da mão do capataz para as mãos sôfregas do seu patrão. Há muitos anos que não sofria tamanho castigo. Na posição invejada de empregado de casa, pensara estar seguro. Como se enganara!
O senhor pegou no chicote, sentindo o seu peso, apreciando o couro da sua pega e das suas tranças, manchadas do sangue de outros Chicos. Era um chicote de cavalo-marinho, de couro de hipopótamo, com um castão em prata portuguesa. Não evitando um pequeno sorriso de satisfação, Carlos Oliveira sorveu uma lufada de ar noturno. Como amava estes momentos e o seu contraste com o passado em Portugal. Lá, na terra-mãe, fora um produtor e vendedor local de frutas e hortaliças; a cada sábado e terça-feira, sempre o mesmo mercado, sempre os mesmos clientes. O dinheiro era parco e, quando a oportunidade surgiu para emigrar para Moçambique, a vergonha que sentia da sua condição deu lugar a visões de riqueza e ascensão social. Ali, no centro deste Moçambique colonial, poderia dispor da vida de outro ser. Naquela noite, de peito feito e na presença de outro homem a si subjugado, Carlos Oliveira sentia-se em êxtase!
Por momentos, a sua esposa veio-lhe à memória. Aquela mulher fugidia, que sempre tão cedo se escapulia para a cama, evitando os amores do seu marido. Quando, naquela noite durante o jantar, ela se queixou de não encontrar o anel, Carlos Oliveira não perdeu a ocasião para lhe mostrar o quão macho era. Iria encontrar o maldito anel! Chico e aquele chicote de couro seriam a sua passagem para uma muito ansiada noite de sexo.
Os dois capatazes pegaram nos braços de Chico, forçando-o a ficar de pé, abraçado ao grosso tronco de uma palmeira. O rosto resvalou nos gumes do tronco enquanto os braços eram puxados ao limite pelos dois homens, que amarraram os pulsos do Chico com uma grossa corda de sisal. Toda a operação indicava um elevado nível de perícia e rotina; frios e silenciosos, pelo menos à superfície, os dois capatazes esforçaram-se por não denunciar qualquer emoção.
Sentenciado, arrastado e amarrado, Chico começou a resignar-se à realidade. Os seus apelos enfraqueceram, perdendo vigor, e as suas palavras pareciam diluir-se em meros murmúrios dirigidos ao solo.
Para fugir dali para fora, pelo menos na sua mente, Chico forçou uma das memórias mais felizes que guardava em si. Era um dia ameno de verão; ele estava encostado ao tronco de uma árvore de fruto, quiçá uma mangueira, observando o seu pequeno filho Juma, enquanto ele contemplava e brincava com umas pedrinhas no chão, horas a fio. Naqueles momentos, observando o filho, Chico esquecia o mundo em que vivia, convicto no seu íntimo de que o pequeno Juma só conheceria a liberdade.
Estava o pobre homem imerso nestes pensamentos, quando recebeu a primeira vergastada do seu senhor. A força do chicote fora tal que os pensamentos de Chico o abandonaram, e ele despertou para a realidade.
O senhor Oliveira aplicou o castigo – Plaft, plaft, plaft, plaft, plaft! Cada gemido, cada súplica dava-lhe um novo ânimo, um prazer que o transportava para a realidade que era sua, a de um deus intocável e soberano, dispondo de vidas bem inferiores à sua. Após recuperar o fôlego e o balanço, apertou uma vez mais o chicote, olhando com prazer para as veias salientes e pulsantes das suas mãos – Plaft, plaft, plaft, plaft, plaft!
Chico não se apercebera que Juma, o seu filho de cinco anos, também presenciava aquela cena. Despertou da cama com a algazarra, e escondeu-se por detrás de arbustos, seguindo toda a cena como que hipnotizado, sem pestanejar. Para esta criança, parecia-lhe irreal que o homem amarrado à árvore fosse o seu querido papá.